O Mistério: Capítulo Um
Capítulo Um: A Família M
Pequenos incidentes
 
A família M é uma família muito tradicional: vivem nesta cidade desde os tempos que o lugar não era mais que um vilarejo. O grande e orgulhoso castelo que se vê na colina pertence à eles.
O Senhor Sílvio, Capitão da Marinha aposentado, é o atual patriarca da família, casado com a simpática Matilde. Eles perderam o filho Otávio, a filha Eloísa, a nora Elisa e o genro Paulo no terrível Grande Incêndio que reduziu o Parque dos Ipês a cinzas há quinze anos atrás. No local do parque destruído pelo fogo, próximo da praia, foi construído um memorial.
Roberto, filho de Otávio e Elisa, e Marcos, filho de Paulo e Eloísa, são os únicos herdeiros legítimos do nome, da fortuna e do castelo dos M e vivem ambos com os avós. Eles teriam sido vitimados no incêndio também se não estivessem viajando em férias com os avós na época.
Roberto acabou de se formar advogado, ingressou na carreira política e namora com Amanda, que está atualmente fazendo residência no Hospital Geral. Por ele, eles se casariam logo, mas Amanda não parece ter pressa, querendo primeiro se formar.
Marcos terminou recentemente seu doutorado e dedica-se a pesquisa científica.
 
Aquela semana era a semana do Grande Baile a Fantasia Anual, em celebração ao aniversário de Matilde M. Durante a semana toda estavam sendo feitos os preparativos da festa, as comidas, a decoração, a limpeza da prataria, as confirmações dos convites. O telefone não parava de tocar e os empregados ficavam indo e vindo pelo castelo arrumando tudo.
Enquanto os preparativos corriam, algumas pessoas não tão preocupadas com a festa estavam tendo algumas conversas interessantes. Helena, decidida a fazer com que Roberto tomasse uma atitude em relação a ela, tinha aproveitado uma oportunidade em que o encontrou sozinho na cozinha para declarar seu interesse por ele. Infelizmente para ela, o interesse não era mútuo. Roberto veementemente deixou claro que não sentia absolutamente nada por ela.
"Helena, você está confundindo amizade com outra coisa. Há anos sou apaixonado pela Amanda, você sabe disso, e isso não mudou, eu sinto muito!"
"Roberto, eu tenho certeza de que se você me der uma chance eu posso lhe mostrar como posso fazer você muito feliz! A Amanda nunca se decide, está sempre ocupada demais para você!" - respondeu Helena, contrariada.
"Sinto muito Helena, eu tenho muito carinho por você, mas não, não temos a menor chance juntos. Melhor a gente terminar essa conversa por aqui antes que a gente se aborreça um com o outro." - Dizendo isso, Roberto saiu da cozinha, deixando Helena. Marcos, que escutava tudo de trás da porta, entrou.

"Quer dizer que você está interessada no Roberto?" - disse ele, ignorando a expressão zangada de Helena.
"E o que isso interessa à VOCÊ, posso saber?" - perguntou Helena.
"Acontece que eu estou interessado na Amanda. Acredito que possamos discutir esse assunto e sermos úteis um ao outro." - respondeu Marcos, com toda a calma.
"Está aí uma coisa que eu só acredito vendo, Marcos."
"Se você tiver um pouco de calma e dez minutos, eu explico o que tenho em mente. Acredite em mim, você vai querer ouvir."

Naquele momento, Kiki, a empregada da casa, entrou na cozinha e os dois se viram obrigados a calar.
"Vamos procurar um local mais reservado" - disse Marcos, saindo para o corredor.
Apesar de só ter ouvido o finalzinho da conversa, Kiki ficou pensando no que poderia estar por trás daquilo... decidiu que iria ter uma conversa discreta com os demais empregados da casa para saber mais, e que ficaria de olho naqueles dois conspiradores... Muito provavelmente Seu Zé, o zelador ou Elaine, a jardineira, poderiam saber alguma coisa, especialmente Seu Zé, que sempre parecia saber tudo que acontecia no castelo.
 
Mais tarde no mesmo dia, Roberto estava trabalhando em seu computador quando recebeu um estranho email. Ele não conseguiu saber quem era a pessoa que lhe enviara, e o conteúdo da mensagem era no mínimo intrigante:
"A vida acontece em círculos. Quando um ciclo termina, um novo ciclo se inicia. Não se pode dizer que nada tenha realmente um fim."
Roberto ficou imaginando quem iria lhe mandar aquilo, uma vez que seu endereço de email era novo, e ainda não tinha sido divulgado para ninguém, e por quê. Era realmente um email muito esquisito.
"Provavelmente é apenas um spam" - concluiu ele e esqueceu o assunto.
 
Enquanto isso, no salão, Matilde atendia um estranho telefonema. A pessoa pedira especificamente por ela, e Matilde imaginou que fosse mais um convidando confirmando presença.
"Alô? Quem é?"
Uma voz, que parecia ser de mulher, mas falando de muito distante e num tom de voz abafado, sussurrou em resposta:
"Cuidado! Cuidado!"
Assustada, mas sem se deixar intimidar, Matilde respirou fundo e respondeu:
"Quem está falando? Isso não é o tipo de telefonema que se faça!"
"Cuidado!" - repetiu a voz, num tom angustiado - "Existem pessoas..."
Neste ponto a ligação foi cortada.
Matilde colocou o telefone no gancho, tremendo, a campainha da porta tocou e a assustou ainda mais. A empregada veio avisar que era para ela. Ainda se recuperando do susto, Matilde foi atender. Era Sílvia, da empresa contratada para fazer a decoração da festa.
"Como a senhora está pálida!" - exclamou Sílvia, preocupada - "A senhora está se sentindo bem?"
"Não sei, acabei de atender um telefonema muito estranho... mas não importa, vamos ver a decoração?"
"Como quiser Dona Matilde." - respondeu Sílvia, franzindo a testa.
 
Naquela noite, Amanda apareceu para uma visita, e Roberto ficou tão encantado com o charme dela que esqueceu completamente de comentar sobre o email.
"Como vão os estudos, Amanda? Pensei que você estava muito ocupada para ter tempo de fazer uma visita!"
"Os estudos estão bem e eu sempre arrumo um tempinho para os amigos. Soube que você anda muito ocupado, dividindo o seu tempo entre o trabalho e as suas várias candidatas a Sra. M."
"Que nada! Não tem nenhuma candidata a Sra.M! Isso é apenas fofoca das pessoas. Sabe que não existe nenhuma outra em quem eu pense além de você."
Amanda deu um sorriso, encantada com a sinceridade dele. Roberto ficou um pouco sem graça e disfarçou.
"Você vem ao baile?" - perguntou ele.
"Com certeza! Não perderia o aniversário da sua avó por nada no mundo!"
"Precisamos então combinar que fantasias vamos usar!"
"E você acha que eu vou te dizer? Quero que seja surpresa! Estou ficando quase louca tentando fazer tudo que preciso fazer no trabalho e ainda me preparando para a festa!"
"Você bem que podia ter um pouco de pena de mim e me reservar um horário na sua agenda..." - disse ele.
"Bom, no meu final de semana eu não tenho nada marcado além da festa, então podemos ter um tempo a sós se você quiser."
"Que tal na noite da festa? A gente podia fugir um pouco e ficar no jardim."
"Por mim, está ótimo!"
Neste ponto Roberto não resistiu mais e deu um beijo em Amanda, sem saber que um par de olhos observava por uma das janelas do segundo andar.
 
Marcos finalmente terminou a fórmula na qual estava trabalhando há quase um mês. Apagou o fogo do destilador e olhou o líquido vermelho que terminava de pingar.
Há dois anos tinha pacientemente montado um laboratório numa das torres abandonadas do castelo, longe dos olhares curiosos dos empregados e de sua família.
Aquele brilhante frasco de líquido vermelho custara-lhe muitas horas de trabalho tarde da noite e muitas horas de estudo na biblioteca durante o dia - quando evitava ir para o laboratório, para que ninguém descobrisse seu segredo.
"É isso. Agora, é só beber" - pensou ele, e bebeu a fórmula num só gole. Tinha um curioso aroma e sabor de frutas, o que o deixou surpreso, pois não possuía nenhum componente que pudesse causar aquilo.
Sua cabeça latejou fortemente e ele quase caiu. Marcos segurou-se na mesa, sentindo tontura. Respirou fundo, tentando controlar o mal estar. Por um momento achou que tinha feito algo errado e que iria morrer. Mas minutos depois, entretanto, já sentiu-se muito melhor. Agora, só faltava esperar e testar para saber se funcionara.

 

...continua...