O Mistério: Capítulo Dois
Capítulo Dois: O Baile a Fantasia Anual
Quem é aquele homem vestido de forma tão elegante?
 
No sábado seguinte iria acontecer o tão esperado Baile a Fantasia. Amanda e Helena tinham passado a noite de sexta feira nos quartos de hóspedes do Castelo. Desde sua conversa mal-sucedida com Roberto, Helena não tornara a falar com ele. Enquanto se arrumava para ir para a festa, Helena ficou pensando na melhor maneira de abordá-lo e estava tão ocupada com seus pensamento que nem viu Amanda ao entrar no quarto, entrando em cheio nela.
"Desculpe Amanda, eu estou tão distraída!"
"Tudo bem, não tem importância, eu estou distraída também. Essa festa está me deixando muito ansiosa, porque eu e o Roberto combinamos de nos encontrar no jardim mais tarde."
"Eu pensei que vocês não estavam juntos!" - falou Helena, fingindo completa inocência sobre o assunto.
"Bom... não estamos juntos, mas estamos saindo. Eu falei para ele que não posso asssumir nenhum compromisso mais sério por enquanto, por causa da faculdade."
"Ah, entendo. Mas que bom que vocês estão se entendendo! Quer dizer que vocês combinaram um encontro romântico mais tarde?"
"Sim, às oito da noite no jardim dos fundos!"
"Bom, divirta-se e aproveite! Eu tenho que correr se quiser ficar pronta para a festa!"
"Eu também!" - riu Amanda, indo para o banheiro. Helena aguradou que ela fechasse a porta e se afastou pelo corredor, indo bater na porta do quarto de Marcos.
"Eu estou ocupado agora" - respondeu ele lá de dentro.
"Você vai gostar do que tenho para contar." - sussurrou ela pela porta.
"Então entre." - Marcos abriu a porta, Helena entrou e a fechou atrás de si.
"Acabei de ficar sabendo que a Amanda vai encontrar o Roberto às oito da noite no jardim dos fundos. Achei que você gostaria de saber, assim podemos planejar alguma coisa!" - disse ela com um sorriso de satisfação.
"Obrigado. Pode deixar que eu cuido desse assunto pessoalmente, e sozinho." - respondeu ele, e praticamente empurrou Helena para fora do quarto.
"Bem, preciso decidir o que fazer" - pensou ele - "Não posso simplesmente aparecer lá e fazer uma cena, isso não daria certo. Preciso planejar..."
 

A festa mal tinha começado e já era um sucesso. Eram sete e meia da noite e o castelo estava todo iluminado e lotado de convidados. O graçom trouxe o bolo de aniversário coberto de velinhas acesas para Matilde e todos fizeram um alegre coro cantando "Parabéns a Você!".
No meio da confusão, Amanda saiu discretamente pela porta dos fundos para o jardim, seguida de Roberto.
"Até que enfim!" - riu Amanda - "Finalmente vamos ficar um pouco sozinhos!"
"Nem me fale, parece que a vovó convidou umas duzentas pessoas!"
"Parece mesmo!" - riu Amanda de novo. Roberto beijou-a, rindo também. Neste momento, ouviram um barulho, e viram Marcos parado perto do canteiro de flores, visivelmente constrangido.
"Desculpem... sinto muito. Eu vim aqui fora pegar um pouco de ar, lá dentro está muito barulhento e abafado... eu não sabia que vocês estavam aqui..."
"Claro que não sabia, Marcos!" - Amanda sorriu para ele - "Não tem problema nenhum!"
"Você é muito gentil, Amanda." - disse Marcos, e se inclinou para beijar a mão de Amanda. Roberto não pareceu gostar nem um pouco. Puxou Amanda pelo braço.
"Bom, agora que seu engano está esclarecido, pode ir embora, então" - disse ele, olhando feio para Marcos.
"Sim já vou, não precisa ser grosso." - respondeu educadamente Marcos.
"Grosso? Eu nem comecei ainda!" - respondeu Roberto, já socando Marcos no nariz, que caiu no chão.
"Roberto, você está louco?" - gritou Amanda, tentando apartá-los. - "Marcos, tudo bem?"
"Tudo, não foi nada, com licença, eu vou lá para dentro." - e dizendo isso, Marcos entrou rapidamente no castelo.
"O que deu em você?" - perguntou Amanda, surpresa.
"Não sei..." - falou Roberto com a voz enrolada, como se estivesse saindo de um transe. Ele sacudiu a cabeça, confuso.
"Roberto, você está me assustando. Você está bem?" - perguntou Amanda, preocupada.
"Estou... estou bem... Isso foi muito estranho!" - respondeu ele - "Parecia que eu não era eu, que eu estava assistindo aquilo de longe, que eu não conseguia controlar o que estava acontecendo..."
A empregada veio avisar que o Senhor Sílvio chamava Roberto na biblioteca.
"Acho que ele já soube..." - suspirou Roberto - "Você me espera aqui enquanto converso com ele?"
"Claro" - respondeu Amanda.

Roberto entrou na biblioteca, percebendo imediatamente a expressão zangada do avô. Marcos já estava lá, e pela expressão contrariada, o avõ devia ter dito algo que ele não gostara de ouvir.
"Acabei de saber do pequeno show que vocês dois deram no jardim dos fundos. Vocês esqueceram que o castelo está cheio de gente? Pelo menos cinco pessoas viram a briga. Querem estragar a festa da sua avó?"
"Sinto muito, vovô eu não sei o que me deu, eu fiquei fora de mim." - desculpou-se Roberto.
"Marcos, você deveria saber que o Roberto gosta muito da Amanda. Não deveria ficar provocando. Roberto, por mais que o Marcos provoque, não é razão suficiente para agredi-lo!"
"Sinto muito mesmo vovô!" - repetiu Roberto, chateado.
"Também sinto muito vovô, prometo me comportar o resto da noite." - falou Marcos.
"Muito bem, vamos voltar para a festa antes que sua avó pense que tem algo errado."
 
Enquanto Roberto conversava com o avô, Amanda aguardava por ele no jardim. Um homem alto que ela não conhecia aproximou-se.
"Desculpe senhorita, espero não estar incomodando ou interrompendo..."
"Não, eu estou apenas esperando meu amigo Roberto, que foi conversar com o avô e já volta."
"Meu nome é Jaime." - disse o estranho estendendo-lhe a mão.
"Amanda" - respondeu ela, apertando-lhe a mão. Curiosamente, a mão dele não estava nem fria nem quente.

"Incomoda-se se eu esperar com você?" - perguntou ele educadamente.
"Nem um pouco." - respondeu Amanda, sentando-se no banco do jardim - "Bonita fantasia a sua. Adoro roupas de época. Você é amigo do Senhor Sílvio?"
"Pode-se dizer que sim." - respondeu ele.
Amanda percebeu que o tom educado da voz e a expressão tranquila dos olhos azuis dele não se alteravam enquanto ele falava. Sentiu um arrepio olhando-o nos olhos, e ficou completamente sem graça porque percebeu que o estava encarando mais do que seria educado fazer, e que ele provavelmente também percebera isso. Ela começou a falar, tentando disfarçar seu desconforto.
"Bom, imagino que o senhor não seja companheiro do Senhor Sílvio na Marinha, porque o senhor é muito jovem para ser da mesma época dele..." - Amanda percebeu que esse seu comentário aumentava ainda mais seu próprio desconforto. O rapaz continuava olhando-a nos olhos, ela sentiu outro arrepio subir pela nuca e também que seu rosto começava a ficar quente.
"Não" - respondeu ele - "Nós não somos da mesma época, embora eu também seja da Marinha."
Ela não soube o que responder a isso. Ficaram em silêncio alguns minutos, ela não conseguia desviar os olhos do olhar dele.
"Você veio sozinho?" - perguntou ela finalmente, rompendo o silêncio e rezando para que Roberto voltasse logo.
"Sim. Vim ver se encontrava uma pessoa, mas parece que ela não veio, eu já estava indo embora quando encontrei você."
"Que pena!... digo... que pena que não encontrou essa pessoa..."
"Está tudo bem, foi melhor assim." - respondeu ele calmamente.
Amanda imaginou há quantos minutos estava ali e percebeu que perdera completamente a noção do tempo. Ela levantou-se do banco do jardim lentamente, sentindo que precisava fazer muita força para se erguer, e notou também que continuava encarando os olhos azuis do rapaz. Ele levantou-se também, estendeu a mão e ela, sem pensar, segurou a mão dele. Sentiu uma pequena vertigem, inclinou-se na direção dele lentamente, como se fosse beijá-lo ou como se ele fosse lhe segredar algo, mas alguma coisa a conteve. Os lábios dele se moveram levemente como se ele fosse dizer alguma coisa, mas tudo o que ela escutou foi o início das explosões de fogos de artifício.
"São os fogos?" - balbuciou ela sentindo uma imensa fraqueza.
"Sim, já é mais de meia noite" - respondeu ele com seriedade, desviando os olhos e soltando-lhe a mão.
Ela ouviu chamarem seu nome. Virou-se lentamente na direção do castelo e viu Roberto vindo, e sem saber por que, sentiu-se imensamente aliviada. Seus olhos ardiam.
"Imagino que vamos ver os fogos..." - murmurou ela e olhou novamente na direção do rapaz, mas ele não estava mais ali. Roberto apareceu a seu lado.
"Com quem estava conversando?" - perguntou ele.
Amanda não conseguiu responder, abraçou-o fortemente e caiu no choro.
 

Todos tinham ido assistir à queima de fogos. Roberto continuou abraçado a Amanda até ela se acalmar.
"Por que está tão aborrecida? O que aconteceu exatamente?"
"Você não o viu? Um convidado... eu acho... eu não sei porque fiquei assim, não aconteceu nada demais! Nós só estávamos conversando..."
"O que vocês conversaram?" - Roberto parecia muito preocupado.
"Nada de importante, só aquelas coisas que a gente fala quando não conhece uma pessoa..."
Amanda interrompeu-se, os olhos dela se arregalaram e ela empalideceu.
"O que foi? Você está bem?"
"Precisamos falar com seus avós! Não sei como explicar, mas eu estava conversando com aquele homem, e tivemos uma conversa completamente diferente do que eu pensei que tinha sido! Eu me lembro do que falamos, mas não sei como explicar, agora me veio à lembrança um outro diálogo completamente diferente e é muito importante que eu fale com seus avós!"
 

...continua...