O Mistério: Capítulo Cinco
Capítulo Cinco: Revelações
Quem é aquela dama tão triste?
 
No dia seguinte, a primeira coisa que Amanda e Roberto fizeram quando Elaine chegou para trabalhar foi pedir-lhe que descrevesse a misteriosa mulher que ela vira e procurasse identificá-la. Roberto ainda estava cético com relação a tudo aquilo, mas queria mais informações, especialmente porque queria descobrir se Elaine poderia estar envolvida naquilo que ele acreditava que fosse uma conspiração contra sua família. Elaine confirmou que a mulher se parecia com um dos retratos da sala de armas, aquele que correspondia a Julia M. Amanda tranquilizou-a, dizendo que continuaria a pesquisar mais sobre a vida dos antepassados dos M em busca de alguma informação.
Elaine foi cuidar de seus afazeres e Roberto fez Amanda prometer que não conversaria com mais ninguém sobre aquele assunto e que não ficaria revirando o castelo atrás de informações.
"Tudo bem" - disse Amanda, começando a se sentir aborrecida com a insistência de Roberto em tratá-la daquela forma superprotetora - "Mas vou continuar a pesquisa na biblioteca, afinal, que mal pode isso fazer?" - e dizendo isso, dirigiu-se resolutamente para a biblioteca, enquanto Roberto foi telefonar para o Inspetor Flores, ligeiramente aborrecido com a teimosia de Amanda.
O Inspetor Flores reagiu exatamente como Roberto esperava, ficando zangado com as intromissões de Amanda em sua investigação e aconselhando duramente a Roberto a controlar melhor "sua namorada". Roberto ficou furioso com a resposta, porque se via obrigado a concordar com o Inspetor, porque tinha dúvidas que poderia considerar Amanda sua "namorada", e pior, porque duvidava muito que ela fosse fazer o que ele pedira.
 
Enquanto isso, totalmente alheio ao que acontecia à sua volta, Marcos continuava seus estudos. Os efeitos da poção vermelha na noite do baile tinham deixado ele satisfeito, mas ainda não era o que ele desejava. Ele se concentrou no aperfeiçoamento da fórmula, ignorando completamente qualquer outro assunto que envolvesse os demais moradores do castelo.
 
Amanda passou o dia todo lendo os diários de bordo do Almirante Jaime e do Capitão Nelson, achando interessante suas aventuras marítimas e fazendo anotações num caderno das pequenas e casuais observações pessoais que encontrava que se referissem à família. Tudo que conseguiu foi cofirmar coisas que já sabia, o nome de alguns familiares, quantos filhos cada um tinha tido, o nome de suas esposas. Amanda cansou-se de ler tudo aquilo e resolveu guardar os livros. Não estavam ajudando muito. Enquanto recolhia as coisas, o telefone tocou. Amanda resolveu não atender, um dos empregados que cuidasse daquilo. O telefone continuou a tocar insistentemente, e Amanda atendeu afinal, com um suspiro.
"Alô?" - disse ela ao telefone, distraidamente.
"Olá, Amanda, desculpe telefonar assim."
Amanda sentiu-se gelar reconhecendo a voz da pessoa do outro lado. Ela engoliu em seco e respirou fundo para que a voz não saísse trêmula.
"Olá Almirante, estive a sua procura, estou feliz que tenha ligado." - respondeu ela, tentando manter a coragem e não aparentar seu pânico.
"Obrigado pelas flores" - disse o fantasma com uma voz tranqüila - "Eu gostaria de conversar melhor com você. Pode vir até aqui ainda hoje?"
Já estava começando a escurecer, Amanda sentiu medo e hesitou em responder.
"Você estará segura, dou minha palavra de honra e de cavalheiro" - assegurou o espectro no telefone.
"Está bem, eu vou" - respondeu Amanda finalmente, ligeiramente apreensiva.
 
Já havia escurecido completamente quando Amanda chegou a casa dos Palmeira. Timothy esperava-a no portão da casa, pálido e sério.
"Ele nos telefonou também." - disse ele, abrindo o portão para Amanda - "Fico impressionado como possam fazer isso, usar as linhas de telefone para se comunicar." - completou ele, com um tom de voz amargo.
Amanda não disse nada e entrou. Estava com medo, mas respirou fundo para manter-se calma.
"Não se assuste, ele já está aqui e parece muito calmo, como da outra vez." - disse Timothy baixinho, indicando o caminho para o cemitério - "Você me perdoe, mas não vou com você, ele me instruiu para deixá-los conversar sozinhos... mas se você tiver qualquer problema, estarei no jardim, basta chamar e eu e Elaine viremos correndo para ajudar... embora eu não saiba exatamente como poderíamos ajudar contra..." - ele se calou, mas Amanda entendia completamente.
"Vai ficar tudo bem, eu não acredito que ele nos queira nenhum mal." - disse ela, disfarçando seu próprio temor e seguindo pela alameda cercada de árvores até o cemitério.
 
O Almirante estava sentado num dos bancos e Amanda sentiu vertigem ao vê-lo em sua luz espectral, parando onde estava, petrificada pelo medo. O fantasma virou-se para ela.
"Boa noite Amanda, obrigado por ter vindo." - ele se levantou de onde estava sentado e aproximou-se dela, mas Amanda recuou um passo e ele parou.
"Sinto muito." - disse, num tom sério, percebendo qual era o problema e dizendo isso, materializou-se completamente, adquirindo a aparência de uma pessoa normal - "Eu sinto muitíssimo mesmo, não tinha intenção de assustá-la." - ele parecia constrangido e Amanda viu ironia na situação.
"Desculpe-me também" - falou ela, um pouco mais tranquila - "Eu não pretendia parecer tão assustada."
"Eu entendo" - disse ele - "Ficarei afastado, mas se você quiser, por favor, sente-se." - ele se afastou para dar passagem para ela sentar-se no banco, mantendo distância. Agora que ele parecia real, Amanda não sentia mais medo.
"Não vejo razões para ter medo de você" - disse ela - "Afinal, na primeira vez que nos vimos não senti medo, pode se aproximar se quiser." - ela sentou-se.
"Obrigado" - agradeceu ele aproximando-se - "O tempo é curto, então por favor perdoe meus modos. Tenho muito para falar para você. Como você já deve saber, sou um dos antepassados dos M, para ser exato, sou bisavô do Sílvio. Minha..." - ele vacilou um momento, mas prosseguiu - "...esposa era das Ilhas, eu a trouxe comigo numa de minhas viagens, mas isso não é importante agora. O importante é que minha neta Julia é que está com problemas. Ela é o espectro que está perturbado, ela pode ser perigosa." - Ele se calou, pensativo. Amanda tinha dúzias de perguntas, mas se conteve. O Almirante continuou.
"A história é complicada de explicar e eu não tenho todas as informações que deveria ter para realmente ajudar."- continuou ele - "Julia faleceu jovem, num estranho acidente. Caiu do alto dos penhascos na praia, a queda foi fatal. Não acredito que ela mesma tenha provocado isso, mas nós não sabemos ao certo e ela não é de conversar muito com ninguém. A morte trágica pode deixar uma pessoa muito perturbada. Julia sai às vezes para ir até a praia e fica muito tempo olhando o mar. Todas as vezes que tentei falar com ela, ela reagiu muito mal. Meu filho Nelson nunca falou muito comigo sobre o assunto, e isso é minha culpa, pois eu não dei muita atenção à ele quando eu estava vivo... eu não... não podia dar a atenção que ele merecia, por causa de tudo que aconteceu nas nossas vidas."
O fantasma fez uma longa pausa, pensativo, e Amanda decidiu falar.
"Não sei o que fazer ou como ajudar." - disse ela - "Não tenho certeza se entendi qual é o problema..."
"O problema é que Julia está agindo de forma perigosa." - continuou ele - "Aquela noite no castelo, era ela a pessoa que eu esperava encontrar na festa. Ela está com muita raiva e nós achamos que ela está se comportando de forma violenta, ela pode machucar alguém seriamente. Eu... nós temíamos que ela fosse ao castelo e pudesse atacar alguém."
"Mas o que eu posso fazer?" - perguntou Amanda - "E por que sou eu que posso ajudar? Por que você escolheu falar comigo? Eu nem sou da família! Você deveria falar com alguém da família!"
"De forma indireta, você é da família, Amanda." - disse ele.
"Eu apenas sou amiga deles, quero dizer, eu e o Roberto nos vemos e saímos de vez em quando, os avós dele gostam muito de mim mas..."
"Não, não. Escute." - interrompeu ele segurando a mão dela - "Você é da família. Seu pai é das Ilhas, você é uma parente muito distante, mas é parente... seu pai descende da família de minha esposa, Elizabete."
Ele se calou, desviando o olhar e soltando a mão dela. Amanda sentiu novamente a mesma vertigem que sentira da primeira vez que o encontrara e um incrível peso nas pernas. Ele se inclinou para ela, como se fosse tocar seu cabelo e ela teve novamente a impressão de que ele iria beijá-la. Amanda se levantou num salto, afastando-se dele horrorizada com o pensamento que lhe ocorrera repentinamente.
"Não encoste em mim! Eu... eu me pareço com ela, não é isso? É isso, não é?
Por isso quis falar comigo desde o primeiro momento? Você acha que eu sou ela!" - exclamou Amanda, assustada. O espectro segurou-lhe a mão novamente e ela soltou um grito, empurrando-o. Ele parecia desesperado.
"Desculpe, Amanda, me perdoe, eu não queria... Por favor, não vá, é importante!"
"Não vou deixar que você faça isso comigo! Não vou deixar que me use assim!" - gritou ela e saiu correndo.
 
Amanda correu até a casa, entrou sem pensar, sem bater e encontrou Elaine e Timothy conversando na sala. Parou perto da porta tremendo. Eles pararam de falar, olhando para ela.
"Meu Deus!" - exclamou Elaine - "Você está muito pálida! Sente-se aqui, vou buscar água para você."
Timothy aproximou-se, ajudando Amanda a sentar-se, pegando suas mãos.
"Você está bem? Suas mãos estão geladas!" - ele parecia muito preocupado. Elaine voltou com um copo de água.
"Beba, vai se sentir melhor." - ela parecia muito preocupada também.
"Quanto tempo eu fiquei ali?" - foi a primeira coisa que ocorreu a Amanda - "Demorei muito tempo?"
"Não" - respondeu Timothy - "Foram apenas alguns minutos."
"Pareceu muito mais tempo para mim..." - murmurou Amanda abalada.
"Quer que eu telefone para alguém vir buscar você?" - perguntou Elaine.
Amanda ficou alguns minutos em silêncio. Respirou fundo e levantou-se.
"Não, eu preciso voltar lá. Eu preciso terminar de falar com ele, o assunto não está acabado."
"Tem certeza disso?" - perguntou Elaine, ansiosa.
"Sim" - respondeu Amanda com firmeza - "Eu preciso falar com ele. Não adianta eu fugir disso assim."
 
Amanda retornou ao cemitério. Ele ainda estava ali, parado no mesmo lugar. Pareceu-lhe muito triste e ela sentiu pena dele.
"Sinto muito, espero que me perdoe." - disse ele, muito sério - "Eu imagino que toda essa situação seja muito difícil para você."
"Sei que é difícil para você também..." - respondeu ela - "É muito difícil para todo mundo envolvido nessa história. Mas eu preciso saber mais para poder ajudar os M..." - e acrescentou de propósito - "...e especialmente para ajudar Roberto, por isso voltei. Roberto é muito importante para mim."
O espectro parecia mais triste do que nunca. Ele deu um passo na direção dela, mas ela fez um sinal de que ficasse ali.
"Por favor, fique aí. Quero apenas saber o que mais você precisar me dizer, depois vou embora."
"Muito bem, como quiser" - disse ele desviando o olhar dela - "Julia tinha brigado com os pais quando faleceu. Não sei a razão, pois como eu disse, não falo muito com meu filho, ou com a esposa dele, ou com a própria Julia. Meu neto partiu para juntar-se a Marinha antes de tudo acontecer, e somente retornou para o funeral da irmã. Ele de nada sabe, então é inútil conversar com ele. Mas sei que Julia e os pais quase não se falavam mais quando ela faleceu. Você precisa tentar descobrir a razão. Deve haver algum registro da família que possa ajudar e se não estiver no castelo, deve estar na prefeitura. Ou então..." - ele calou-se.
"Ou então o quê?" - perguntou Amanda.
"Ou então aquela mulher que conversa com espíritos pode tentar descobrir, falando diretamente com Julia."
"Aquela mulher é inútil" - falou Amanda - "Ela disse que havia um espírito de uma mulher muito zangada e pareceu ficar preocupada com isso. Eu não acredito que ela queira nos ajudar novamente."
"Isso pode ser arranjado." - falou ele.
"Algo mais que queira me dizer?" - perguntou ela, começando a ficar ansiosa para ir embora.
O fantasma apenas fez um sinal negativo com a cabeça.
"Muito bem, eu vou para casa, e amanhã começo a pesquisa. Obrigada por tudo." - Amanda virou-se para ir embora.
"Amanda, espere."
Ela se virou, ele estava tornando-se um espectro novamente, começando a desaparecer no ar.
"Você tinha razão, você é muito parecida com ela e essa foi a razão principal de eu preferir falar com você..."
 

...continua...