O Mistério: Capítulo Sete
Capítulo Sete: Os diários de Teresa M
Trechos compilados: A triste história de Julia M
   
16 de Setembro de 1889

O irmão de Julia, Elias, partiu para a Marinha hoje. Julia estava triste com a partida do irmão, mas não tão triste como eu esperava. Ela não quer me contar nada, mas eu sei que ela tem visto o jovem Alberto, que pertence ao navio do pai dela. Eu não a censuro: ele é lindo, educado, um verdadeiro cavalheiro.
Será que eles se apaixonaram? E caso tenham se apaixonado, será que o Capitão Nelson aprovará?
Julia sempre mencionou como o pai age de forma possessiva e ciumenta em relação a ela, tratando-a como se fosse um tesouro inestimável do qual nenhum outro homem pode se aproximar.

   
20 de Setembro de 1889

Finalmente Julia me contou tudo! Ela e Alberto tem se encontrado secretamente no Parque dos Ipês. Parece que trocam muitas promessas de amor eterno, muitos beijos e abraços. Estão tão apaixonados!
Alberto está muito bem intencionado. Ele pretende pedir a autorização do Capitão para casar-se com Julia o mais rapidamente possível!
Estou tão feliz por eles, imagino quando chegará a minha vez de me apaixonar...

   
28 de Setembro de 1889

Julia estava muito infeliz hoje. Alberto finalmente foi a casa dos M para pedir Julia em casamento e o Capitão ficou furioso! Não apenas ele negou veementemente sua autorização, como expulsou Alberto da casa aos gritos e pontapés!
Julia está desconsolada, ela chorou o dia todo e nada do que tentei para animá-la deu certo. Ela chegou a me assustar, com a raiva que está demonstrando, fiquei com receio que ela faça alguma tolice!

   
14 de Outubro de 1889

Julia continua se encontrando com Alberto, às escondidas. Ele deve partir no navio com o Capitão logo após o Ano Novo, e Julia continua desconsolada com a negativa de seu pai ao pedido de casamento dele. Ela tentou conversar com o pai, mas ele se recusou a ouvi-la, ficou muito zangado e proibiu-a de mencionar o nome de Alberto novamente. Julia me disse que houve uma cena terrível por causa disso!
Imagino como o Capitão ficaria furioso se descobrisse que ela vê Alberto quase todos os dias no parque!

 
25 de Outubro de 1889

Julia apareceu hoje em casa transtornada de tanta felicidade. Alberto está falando em fugirem juntos. Eu a aconselhei como pude a não cometer tamanha loucura! Ela disse que não se importa com o que qualquer pessoa tenha a dizer a respeito. As relações entre ela e os pais deterioraram a tal ponto que eles mal se falam. Que belo Natal eles terão dessa maneira! É uma situação muito triste e difícil. Eu gostaria que Julia pensase a respeito de tudo isso e agisse de forma razoável.

 
06 de Novembro de 1889

O pai de Julia descobriu que ela vê Alberto em segredo, desobedecendo suas ordens. Eles tiveram outra discussão terrível. Julia disse uma coisa que me deixou muito preocupada: que ela sabe de uma forma de forçar seu pai a aceitar a situação.
Eu apenas rezo para que ela não faça nada que possa trazer-lhe arrependimento e problemas mais tarde.

 
14 de Novembro de 1889

Julia hoje me disse que Alberto irá partir antes do previsto. Parece que o Capitão, usando suas influências, conseguiu que o Almirantado faça Alberto embarcar antes do Natal em um outro navio. Julia, entretanto, não me pareceu muito preocupada com isso. Ela disse que agora não há mais nada que seu pai possa fazer para separá-la de Alberto. Eu perguntei se eles tinham cometido a loucura de se casar em segredo mas ela apenas sorriu e disse que ainda não. Estou muitíssimo preocupada com ela, esta história toda está indo longe demais.

   
29 de Novembro de 1889

Julia continua sem falar com os pais desde a última discussão. Dona Valéria iniciou os preparativos para a festa de Natal no castelo, famosa em toda a região. Isso significa que não teremos muitas oportunidades de conversar a sós com o grande movimento de pessoas preparando a festa.

 
05 de Janeiro de 1890

O Capitão M embarcou em viagem em seu navio e Julia e a mãe viajaram repentinamente para a casa de campo dos M. logo após o Natal. Considerando-se que o verão mal começou, é estranho que elas viagem tão cedo, quando o normal seria irem apenas depois da Páscoa. Não tive oportunidade de conversar com Júlia a respeito, pois tudo foi providenciado rapidamente, antes que tivéssemos oportunidade de nos falar. A última vez que nos vimos foi na festa de Ano Novo no castelo, mas não tivemos oportunidade de conversar sozinhas.
Os empregados de nossa casa me contaram que souberam através da empregada dos M que uma briga terrível aconteceu pouco antes de partirem. A moça disse que o Capitão M parecia furioso quando partiu em viagem. Espero que Julia me escreva em breve me contando como estão as coisas.

 
25 de Fevereiro de 1890

Finalmente recebi uma carta de Julia. Ela não me contou muito do que aconteceu entre ela e o pai, disse apenas que tudo irá mudar muito em breve e que ela está feliz e esperançosa. Alberto deverá retornar apenas no final do ano, é comum algumas viagens serem muito longas, e parece que o Capitão solicitou que o embarcassem em algum navio que o levasse o mais distante possível. Julia disse que não está preocupada, que pode esperar todo esse tempo por ele e que terá surpresas muito boas para Alberto quando ele retornar.
Ainda me preocupo com ela, tive a impressão que ela está se iludindo para não perceber que está tudo acabado entre Alberto e ela. A carta me deixou muito triste.

 
10 de Maio de 1890

Julia não me escreve e não sei o que pode estar acontecendo com ela. Elas não voltaram da casa de campo ainda.

 
22 de Maio de 1890

Recebi uma carta da mãe de Julia, Dona Valéria. A princípio fiquei muito assustada porque tive medo que ela tivesse descoberto que eu já sabia de Julia e Alberto e me censurasse por não ter falado nada. Mas a carta dela era amável, ela disse que sabia que eu sou a melhor amiga de sua filha e que agradecia esta amizade, que ela muito aprecia, mas que Julia não terá permissão para trocar cartas com ninguém durante algum tempo. Não me atrevo a perguntar aos empregados outra vez se eles sabem de alguma coisa, esta carta me deixou preocupada com minha própria situação de cumplicidade nos segredos de Julia. Vou evitar até mesmo continuar a escrever meus diários de hoje em diante, porque temo que alguém possa ainda lê-los.

 
15 de Setembro de 1891

Há muito tempo eu não escrevia nada em nenhum diário, mas devido a todos os eventos que ocorreram, não posso continuar sem escrever, preciso desabafar minha tristeza...
Vou começar pelo inverno do ano passado, em final de agosto, quando Julia finalmente retornou de sua interminável estadia na casa de campo dos M, acompanhada pela mãe e muito abatida.
Durante alguns dias foi impossível falar com ela, mas Dona Valéria me recebeu muito bem na casa, dizendo que infelizmente a filha estava muito doente e não poderia receber visitas, e que por isso elas tinham retornado do campo. Foi o que bastou para minha mãe me proibir de ir à casa dos M enquanto Julia não se recuperasse completamente, com medo de que ela tivesse alguma doença infecciosa. Quase dois meses se passaram até que Julia saiu de casa pela primeira vez desde sua volta, ela e a mãe vieram até a nossa casa para o chá. Não pudemos conversar a princípio, pois a presença de nossas mães inibia qualquer diálogo mais íntimo que pudéssemos sonhar em ter. Mas finalmente quando o lanche terminou, Dona Valéria sugeriu que Julia e eu passeassemos um pouco nos jardins para que Julia tomasse um pouco de sol. Ficamos andando entre as flores e a curiosidade me queimava, eu tinha mil perguntas, mas Julia sussurrou entre dentes que com certeza estávamos sendo vigiadas e que eu mantivesse apenas uma conversa inocente que qualquer um pudesse ouvir. Assim, a visita delas terminou sem que eu pudesse ter conversado com Julia decentemente, mas quando Julia ia embora e foi me abraçar, ela colocou um pequeno papel dobrado em minha mão. Era um bilhete para que eu fosse ao parque no dia seguinte às duas horas da tarde, porque ela encontraria um modo de me sair de casa e me encontrar lá. E foi o que ela fez mesmo, pois no dia seguinte às duas em ponto, ela estava no parque com sua governanta, que não viu nada de mal em deixá-la sentar-se sozinha comigo no banco do parque para conversar, satisfazendo-se em observar-nos de uma distância em que ela não poderia escutar nossa conversa.
Finalmente pude saber tudo que acontecera nos últimos meses, e o que escutei de Julia me deixou profundamente consternada.
Julia realmente cometeu um grande erro naquele início do mês de novembro em que estava tão apaixonada por Alberto. Naquela briga com os pais logo depois do Ano Novo, a raiva fez com que ela perdesse a prudência e dissesse a eles o que fizera, desafiando-os a tentar separá-la de Alberto naquele momento. Isso explica a fúria do Capitão M e a partida inesperada dela e da mãe para a casa de campo: eles temiam que o estado de Julia se tornasse logo visível e que todos soubessem o que tinha acontecido.
Julia teve o bebê em final de julho, um pouco antes da data esperada, um menino, ruivo como o pai, Alberto, e como o avô, o Capitão M. Apesar das súplicas de Julia, os pais não permitiram que ela ficasse com a criança. Eles a mandaram para longe, sem dizer para onde ou para quem. Alberto ainda estava no mar, e Julia não podia comunicar-se com ele. Ela ficou completamente arrasada com por ter sido separada de seu filho recém-nascido, mas seus pais foram intransigentes, eles não queriam permitir em nenhuma hipótese que semelhante escândalo viesse a conhecimento público.
Logo depois, Julia e a mãe retornaram para o castelo e a mãe usou a história de uma doença para mantê-la escondida enquanto Julia se recuperava do nascimento do bebê. Parece que deu certo, pois ninguém desconfiou do que estava acontecendo.
O que vou contar a seguir eu somente soube mais tarde, quando reconstituiram a história toda.
Depois de voltar da casa de campo, Julia passou a tentar localizar onde estaria Alberto, para escrever para ele e contar-lhe tudo o que acontecera. Ela não foi bem sucedida nestas tentativas, e teve que ter paciência, pois não queria correr o risco de escrever para o Almirantado e ter sua carta interceptada. Vivia da esperança que assim que Alberto soubesse de tudo o que ocorrera, eles se casariam rapidamente, Alberto exigiria do Capitão que revelasse o paradeiro de seu filho para que eles vivessem como uma família. Assim todo o tormento de Julia terminaria e ela poderia ser feliz.
Alberto finalmente retornou de sua longa viagem em novembro e Julia conseguiu mandar-lhe um bilhete para que a encontrasse em segredo junto à casa de praia dos M.
Alberto compareceu ao encontro e Julia finalmente pode contar-lhe tudo que acontecera durante sua ausência. Mas diferente do que Julia pensava, Alberto não ficou nem um pouco contente com a notícia de que tinha um filho ilegítimo, nem entusiasmado com os planos que Julia tinha para eles. Alberto tinha sido seduzido com a possibilidade de casar-se com a filha de um dos Almirantes que possuía imensa riqueza, e era isso que pretendia dizer a Julia comparecendo ao encontro: que tudo estava acabado entre eles, que ele iria casar-se e que Julia deveria esquecê-lo para o bem de todos. Ele sequer imaginava que Julia poderia ter tido um filho, mas a notícia de que o Capitão M já "resolvera a situação satisfatoriamente" era para ele um imenso alívio. Alberto tentou convencer Julia de que se ninguém soubesse, Julia poderia simplesmente esquecer que tudo aquilo acontecera e casar-se com outra pessoa e que o Capitão M certamente já teria feito planos para isso acontecesse.
Julia ficou zangada e magoada com as palavras dele, pois como Alberto poderia pedir-lhe que renunciasse completamente ao seu amor, que ela considerava verdadeiro, e ao filho que ela mal tivera oportunidade de segurar nos braços?
Alberto foi embora, não querendo prosseguir com aquela conversa, e Julia ficou ali na praia sozinha e magoada.
É neste ponto da história que ninguém sabe o que aconteceu. Sabemos como foi a conversa entre Julia e Alberto porque o próprio Alberto relatou isso mais tarde, mas segundo ele, quando ele partiu, Julia estava viva e muito bem, apenas zangada porque não conseguira obter o que pretendia. A polícia e a família parecem ter acreditado nele, porque não havia motivos aparentes para que Alberto fizesse algo que pudesse comprometer o futuro promissor que se abria diante dele como genro de um Almirante...
A família percebeu que Julia não estava em seu quarto quando a mãe, antes de ir se deitar, decidiu ir desejar uma boa noite para a filha. Já passava de meia noite. Fizeram uma detalhada busca no castelo e não a encontraram em lugar nenhum. Mandaram um mensageiro à minha casa para me perguntar se eu sabia alguma coisa e tive que suportar com coragem um vasto interrogatório feito por meus pais, que queriam saber até que ponto eu compartilhava dos segredos de Julia. Se eu soubesse do encontro entre Julia e Alberto eu teria com certeza contado para eles, mas eu não falava com Julia há quase um mês. O Capitão M organizou uma extensa busca por todos os lugares e ofereceu uma grande quantia de dinheiro para quem encontrasse sua filha rapidamente, mas levou duas horas até que alguém finalmente a encontrou na praia.
... Infelizmente, era muito tarde para fazer qualquer coisa por ela.
O funeral de Julia foi muito triste e muito reservado. Fui uma das poucas pessoas convidadas a participar, a família preferiu fazer tudo de forma discreta e rápida devido às dimensões da tragédia. Alberto foi interrogado pela polícia, e ofereceu toda a ajuda que podia, reconstituindo aquela noite, dando os detalhes da conversa, provando onde estivera após falar com Julia. Ele retornara ao seu navio, e as sentinelas confirmaram a hora que retornou. Ele foi considerado inocente de qualquer suspeita e pode prosseguir com seus planos matrimoniais com a filha do Almirante. Eles se casaram no último mês de Maio e a noiva parecia em estado... interessante.

 
Se posso dizer que alguma coisa boa nasceu de toda esta tragédia foi eu ter conhecido o irmão de Julia, Elias, um pouco mais de um ano mais jovem que ela, um ano mais velho que eu. Da tristeza de nosso primeiro encontro brotou uma sincera amizade que rapidamente evoluiu para uma profunda afeição. Nosso casamento será realizado em pouco mais de um mês, e eu tenho certeza de que seremos muito felizes.
 
...continua...