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| Capítulo Oito: Grandes descobertas |
| Um segredo só pode existir se todos que o conhecem estiverem mortos... e se os mortos não voltarem. |
Amanda passou vários dias com os
diários de Teresa em seu poder. Quando terminou de ler a
história de Julia M sentiu-se muito comovida e entendeu
porque a pobre alma sentia tanta raiva. Ainda não tinha
idéia de como poderia acalmar o fantasma, mas ao menos
agora que sabia toda a história, podia pensar num modo.
Não existiam mais informações importantes sobre os M
nos volumes restantes dos diários de Teresa, ela
concentrou-se em sua nova vida de casada, nos filhos e na
vida familiar e escrevia apenas notas alegres sobre isso.
Amanda não precisou ler todos os diários, bastou uma
rápida passada de olhos para perceber que nunca mais
Teresa comentou nada sobre Julia ou qualquer outro membro
da família M, exceto por uma triste nota na ocasião do
falecimento do Capitão Nelson, um ano depois da morte de
Julia. Amanda não precisava mais dos diários e tinha
consciência de que alguém poderia descobrir que estavam
em sua casa. Precisava planejar uma forma de devolvê-los
no castelo, no quarto dos M, sem que ninguém percebesse.
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| O Inspetor Flores não
parecia desconfiar de Amanda, especialmente por que ela
disfarçou muito bem o tempo todo em que manteve os
diários consigo, visitando normalmente o castelo, apesar
de Roberto evitar sua companhia e os dois mal se falarem
em todas as visitas que Amanda fez. Roberto ainda estava
muito triste com Amanda e isso era visível, mas ela não
sabia o que fazer para reverter aquela situação. Aparentemente os espectros estavam calmos naquela semana, pois Elaine disse que nenhuma aparição nova ocorrera em sua casa e nada estranho ocorreu no castelo durante vários dias. Um inesperado incidente foi o que deu a Amanda a oportunidade perfeita. Ela tinha ido ao castelo, levando a caixa com os diários em seu carro, como já fazia desde que decidira devolvê-los, e estava conversando com Elaine
no jardim quando ouviu-se um grito vindo do salão
principal e todos correram para ver o que acontecia. O Senhor Sílvio tinha acendido a lareira do salão, pois o dia estava um pouco frio, e rapidamente o fogo espalhou-se pelo vaso de plantas e outros objetos próximos. Como da outra vez, os bombeiros agiram rapidamente e o fogo foi controlado. Enquanto a confusão se desenrolava, Amanda aproveitou para devolver os diários de Teresa M no local original e ninguém percebeu o que ela fizera, nem mesmo Dona Matilde, que foi deitar-se depois do incidente sentindo-se mal. Novamente os bombeiros verificaram tudo e não encontraram nenhuma razão para o fogo ter começado. O capitão dos bombeiros aconselhou o Senhor Sílvio a ter mais cuidado na próxima vez que fosse acender a lareira, o que o deixou muito aborrecido, pois ele tinha certeza de que fora cuidadoso. |
Mais tarde, quando tudo estava
terminado, Amanda pediu a Roberto que fossem conversar em
algum lugar onde pudessem ficar à vontade. Eles foram
para o jardim, e Roberto nem tentou disfarçar o quanto
estava contrariado."Eu sinto muito que nós não estejamos nos falando direito, Roberto..." - começou Amanda num tom de desculpas. "Eu imagino que você ainda está muito ocupada com suas investigações pessoais sobre fantasmas, apesar da minha opinião sobre isso." - interrompeu Roberto com amargura. "Eu não posso fazer nada se você não confia em mim, Roberto. Essa sua falta de confiança me deixa ainda mais magoada do que você não estar falando comigo direito!" - disse Amanda com tristeza. Os dois ficaram em silêncio por uns minutos. Finalmente Roberto falou. "Eu tenho algumas coisas para fazer, é melhor eu ir andando." Amanda segurou-o pelo braço. "Não podemos continuar assim nos evitando, você não percebe?" - disse ela, aflita. "Nisso eu concordo com você" - disse Roberto, soltando-se dela - "Eu não posso mesmo continuar assim. Eu acho melhor a gente não se ver mais, Amanda... pelo menos por algum tempo." - Amanda estava atônita. "Mas eu não quero
isso!" - lamentou ela."Esse é um dos problemas: sempre tem que ser do seu jeito, nunca pode ser do meu." - falou ele secamente e afastou-se. Amanda correu para segurá-lo e desta vez, Roberto livrou-se dela com um movimento brusco. "Eu não estou brincando" - falou ele - "Desta vez é sério, Amanda." "Por favor, não!" - implorou ela. Roberto sacudiu a cabeça numa negativa veemente e afastou-se, deixando-a chorando sozinha. |
"Você está bem?" -
perguntou uma voz conhecida num tom triste. Amanda nem
precisava erguer a cabeça para saber quem era. A luz
azulada aproximou-se dela e o espectro materializou-se à
sua frente, segurando seu rosto com carinho, tentando
limpar suas lágrimas."Eu pareço bem?" - perguntou Amanda com tristeza. "Nem que eu passasse o resto da eternidade lhe pedindo perdão, seria o suficiente." - disse o fantasma com tristeza - "Tenho mais esse terrível erro para adicionar na minha lista de arrependimentos. Eu jamais deveria ter envolvido você nesta história." "Devia ter pensado nisso antes." - respondeu ela com rispidez, erguendo a cabeça e olhando-o nos olhos. O olhar triste e acusador dela era tão terrível de suportar que o fantasma afastou-se. "Só posso dizer que sinto muito, embora saiba que isso é insuficiente..." - disse ele. "Não importa mais..." - respondeu ela - "Diga de uma vez o que veio falar e vá embora." O espectro fechou os olhos um momento e quando abriu-os, Amanda viu que o ferira profundamente com suas palavras e mordeu o lábio num gesto ansioso. "Queria saber se você descobriu algo." - disse ele, olhando-a nos olhos. Estava acontecendo novamente, pensou Amanda, ele estava exercendo seu tremendo poder hipnótico sobre ela como na primeira vez que se encontraram. Amanda sentiu o mesmo torpor, mas estava muito mais preparada para reagir desta vez. Ela levantou-se com vigor, avançou na direção dele, segurou-o pelos pulsos e sem ter certeza do que iria acontecer, empurrou-o com força. Descobriu que ele era surpreendentemente sólido para um fantasma: a surpresa e a rapidez do ataque dela derrubaram-no ao chão. Ele ficou caído, sem reagir, parecendo chocado. "Você é mais sólido do
que eu jamais imaginaria." - disse Amanda,
recuperando o fôlego. O fantasma não se moveu ou
respondeu. "Você está bem?" - perguntou Amanda, surpresa com o que acabara de fazer. O Almirante levantou-se lentamente com dignidade e a encarou, sério. "Eu diria que não é possível ferir um homem morto..." - disse ele - "...mas isso não seria totalmente verdadeiro." "Desculpe, mas não faça mais isso, é horrível!" - disse ela. "Eu sinto..." - someçou a dizer ele, mas Amanda interrompeu com um suspiro: "É, eu sei, eu já sei. Você sente muito. Está tudo bem, não foi tão ruim assim. - ela fez uma pequena pausa antes de continuar - Vamos tentar nos concentrar nos assuntos que interessam. Eu descobri a história de Julia e acredito que você possa ajudar." Amanda contou o que tinha descoberto. O espectro escutou em silêncio. "Pobre Julia." - foi tudo o que ele disse quando Amanda terminou. "Eu estive pensando..." - falou Amanda - "Julia teve um filho mas não soube que destino ele teve, talvez seja isso que não permite que ela descanse. Eu vou pesquisar e tentar descobrir onde ele foi parar. Sei que você não fala muito com seu filho, o Capitão Nelson, mas eu gostaria que você tentasse conversar com ele, pergunte a ele para onde ele mandou o bebê. Talvez se Julia souber o que aconteceu com o filho, ela finalmente tenha paz. É o que me parece mais óbvio nesta história toda. Vamos tentar isso primeiro, se não der certo, pensaremos em outra coisa." "Farei tudo que puder... Amanda." - respondeu o espectro. A pequena pausa que ele fez antes de falar o nome dela não passou desapercebida. "O que foi?" - perguntou ela, olhando-o de frente. Ele desviou o olhar. "Amanda... não sabe o quanto eu gostaria de poder conversar abertamente com você... sobre tudo isso. Eu queria poder contar para você o que se passa comigo." - disse ele,tocando-lhe o rosto. Ela sentiu um arrepio de medo. "Não, por favor... " - disse ela, afastando-o delicadamente - "Eu definitivamente não estou interessada em saber! Sei que eu causo em você algum tipo de... efeito emocional por eu ser parecida com sua falecida esposa, isso já ficou muito claro para mim, mas eu não estou interessada em um relacionamento... platônico. Eu acredito que Elizabete também pode ser uma alma penada vagando por aí, exatamente como todos vocês... e nesse caso, a última coisa que eu preciso é de um fantasma ciumento querendo minha cabeça. Agora, se você não se incomoda, eu adoraria poder resolver logo esse assunto fantasmagórico para tentar consertar minha própria vida ao invés de ficar consertando a morte de vocês." ![]() O espectro não respondeu nada, abraçou-a e beijou-a. Foi um beijo longo, e Amanda descobriu que naquele instante ele parecia muito sólido e real. Ele a abraçou suavemente, murmurando: "Eu amo você, Amanda." - disse ele, começando a desmaterializar-se. "Não se atreva a ir embora!" - gritou Amanda - "Volte aqui e fale comigo!" Ele parou de desaparecer e se materializou novamente. "Não podemos fazer isso, está muito errado." - disse Amanda - "Não posso acreditar que eu possa ser ela, por favor, compreenda. Está além da minha capacidade. Esse não é o momento de agirmos dessa forma... irracional. Precisamos resolver o problema de Julia e essas ameaças aos M, por favor." "O que deseja que eu faça?" - perguntou o espectro, derrotado, desviando o olhar dela. Amanda sentiu pena dele, mas manteve a firmeza. "Fale com seu filho, veja o que consegue descobrir." - respondeu ela. "Muito bem." - falou o
espectro com tristeza. "Depois que isso estiver resolvido, Almirante, nós vamos ter uma longa conversa sobre você e sobre... sua história. Precisamos descobrir o que irá fazer com que você possa ter o seu descanso eterno, eu não posso viver a minha vida toda com você me assombrando." Ele não respondeu ou se moveu. Ficaram alguns minutos parados ali silenciosos. Amanda suspirou. "Desculpe, Almirante, eu não queria ter sido tão dura com você, mas estou tentando ser realista." - Ele balançou a cabeça numa negativa. "Você está certa. Eu estou agindo como um tolo, a responsabilidade é minha." "Não precisa passar a eternidade toda se desculpando." - respondeu ela enquanto ele desaparecia no ar. |
| A figura escondida atrás das árvores esperou Amanda se afastar até uma distância segura e entrou rapidamente no castelo. Sabia que o que tinha presenciado era muitíssimo valioso e ficou pensando o que iria fazer. |
| No dia seguinte, Amanda foi até a prefeitura pesquisar os antigos registros. Tinha a data próxima do nascimento do bebê de Julia M - julho de 1890 - e imaginava que não deveriam existir muitas famílias que tivessem tido um menino naquele mês, pois a vila era muito pequena naquela época. Encontrou apenas dezesseis meninos e foi eliminando os candidatos mais improváveis. Primeiro Amanda excluiu os filhos das famílias mais ricas, pois seria impossível para o Capitão esconder o neto ilegítimo com essas famílias sem que todos ficassem sabendo. Provavelmente ele teria escolhido uma família de origem mais simples, que aceitaria criar a criança como se fosse sua, ficaria feliz em guardar segredo ao receber uma quantia em dinheiro por esse serviço. Pensando nisso, Amanda eliminou rapidamente seis crianças da lista, ficando com dez para pesquisar. Dos dez restantes, Amanda retirou todos que não fossem ruivos, e agradeceu mentalmente aos fato das certidões de nascimento terem os dados físicos do bebê e da mãe anotados nelas. Restaram apenas duas crianças. Para sua surpresa, um deles era da família Palmeira, a família de Timothy. Amanda pressentiu que podia ser ele, pois tudo se encaixaria perfeitamente. Seguindo os registros de nascimento, descobriu que aquele menino era o avô direto de Timothy. Tinha sido filho único, casara-se com uma mulher das Ilhas e mudara-se para lá. Depois disso, a família somente retornou ao continente após o nascimento do próprio Timothy. Amanda decidiu que precisava falar com Timothy e Elaine o mais rapidamente possível sobre aquele assunto e tirou fotocópias dos documentos para mostrar-lhes. |
| Quando saía da
prefeitura, Amanda teve um choque: Roberto e Helena
vinham caminhando pela calçada de braços dados, Helena
rindo muito, Roberto inclinado para ela com um sorriso.
Pareciam muito íntimos. A surpresa fez com que Amanda
derrubasse todos os papéis que carregava, que se
espalharam pela calçada. Os dois pararam perto dela, o
sorriso de Roberto desapareceu completamente e Helena
olhou-a com uma expressão divertida que lhe deu vontade
de avançar nela para arrancar-lhe o sorriso com as
unhas. Ao invés de fazer isso, Amanda abaixou-se para
recolher os papéis. Roberto, educadamente, ajudou-a. "Obrigada." - falou, pegando algumas folhas das mãos dele sem olhar nos olhos dele, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam explodir. Os três ficaram ali parados em silêncio e Amanda decidiu sair dali o mais rápido possível. "Eu tenho que ir" - disse ela e saiu andando rapidamente sem se virar. "Amanda!" - chamou Roberto, indo atrás dela. Amanda parou, petrificada. "Faltou esse." - disse ele educadamente, entregando-lhe uma folha. Amanda olhou-o nos olhos, mas ele desviou o olhar. "Obrigada" - disse ela secamente, virando-se e indo rapidamente em direção a seu carro. |
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