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| Capítulo Dez: A tragédia do Almirante M |
| "Choram todos pelo homem cujas desventuras não conheceram limites." |
| Os trechos abaixo foram extraídos da correspondência que o Almirante e sua irmã Sophia mantiveram com Lady Eugênia, antiga amiga de sua mãe, que eles carinhosamente tratavam como tia. |
| Abril de
1836 Querida Tia Gê Como a senhora pode dizer que estou
ficando velho para me casar? Isso muito me ofende! Sou
ainda jovem, e tenho muito tempo para encontrar a pessoa
certa! Quando a senhora menos esperar, estarei casado e
com muitos filhos. Seu zelo e preocupação comigo são
exagerados. Seu sobrinho Jaime |
| Agosto de
1836 Estimada Tia Gê Lamento que a senhora se sinta tão
veementemente desapontada com o rumo que os
acontecimentos tomaram - de minha parte devo admitir que
estou muito feliz. Tenho consciência do quanto pode
parecer imprudente e irresponsável meu precipitado
pedido de casamento, tendo conhecido Elizabete há tão
pouco tempo, mas estamos felizes e a família dela não
faz objeções à nossa união. A senhora poderia ficar
feliz por mim, a sua benção traria muita satisfação e
paz de espírito para todos nós. Jaime |
| Setembro de
1836 Cara Tia Eugênia Estou escrevendo apenas para dizer que
apesar das pessoas que convidamos para o casamento não
terem comparecido em sua grande maioria, a cerimônia foi
muito bonita, tivemos uma celebração especial após e a
ausência dos convidados foi sentida mas não diminuiu
nossa felicidade. Jaime M. |
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| Outubro de
1836 Cara Tia Eugênia O interesse que demonstrou
sobre a saúde de minha irmã deixou-me comovido. Há
algum tempo não recebia notícias da senhora, e saber
que está com boa saúde e continua com a mesma
vitalidade de sempre deixou-me muito satisfeito. Sophia
está bem cuidada, nosso médico assegurou-nos de que o
mal que a aflige não é sério. Ela deverá permanecer
em repouso por mais uma quinzena e depois poderá retomar
suas atividades sociais. Tenho certeza de que uma visita
sua será muito apreciada, estaremos sempre prontos a
recebê-la em nossa casa. Jaime M. |
| Junho de
1837 Estimada Tia Gê Agradeço imensamente sua oferta em hospedar Elizabete e Sophia enquanto viajo, mas isso é desnecessário. Sophia não apresentou recaída de sua última enfermidade, Elizabete está muitíssimo bem de saúde e temos empregados suficientes no castelo. Meu retorno deve se dar antes da época em que nosso filho irá nascer e o Dr. S está atento para atender Elizabete em suas necessidades. Eu apreciaria muito, entretanto, se a senhora puder visitá-las de quando em quando pois a sua companhia é muito apreciada. Jaime M. |
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Novembro de
1837 Cara Tia Eugênia Temos o prazer e a felicidade de informar que nosso filho nasceu com boa saúde e que Elizabete passa bem. Nós lhe daremos o nome de meu avô, Nelson. Estamos todos muito felizes. Devo partir novamente em viagem em poucos dias, fui afortunado por poder retornar a tempo de estar aqui para o nascimento de meu filho, mas meus deveres exigem minha atenção. A sua visita é muito aguardada e será muito bem vinda. Jaime M. |
| Novembro de
1837 Lady Eugênia Os eventos trágicos da noite passada deverão permanecer em segredo e jamais revelados a ninguém. Esta é minha decisão final. Desde que Elizabete e eu nos conhecemos, a maioria das pessoas do meu antigo círculo de amizades nos voltaram as costas e não agora será neste momento de tristeza que eu irei desejar o retorno delas. Manteremos tudo estritamente entre as pessoas da família. Estou contratando uma governanta especialmente para cuidar do menino, e Sophia está de partida para uma casa de saúde, pois o incidente de duas noites atrás afetou também sua saúde delicada. |
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| As
pessoas podem pensar o que quiserem e acreditar no que
quiserem. Os empregados foram rigorosamente advertidos
sobre comentarem a respeito fora dos muros do castelo.
Esse é o meu desejo, e assim será feito. Agradeço sua
amizade durante todos estes anos, mas peço-lhe que não
exija de mim agora neste momento algo que está além da
minha capacidade humana. Almirante Jaime M. |
|
Maio de 1842Caríssima Tia Eugênia Quem lhe escreve é Sophia,
pois sei que desde o triste falecimento de Elizabete,
Jaime não mais respondeu suas cartas ou manteve contato
com a senhora. Ele não pode saber que lhe escrevo ou
ficará muito contrariado, por isso peço-lhe que guarde
segredo. Há alguns dias, retornei ao castelo após outra
longa estada no sanatório, onde recuperei parte da minha
saúde, mas não tenho ilusões, sei que a doença
continuará me consumindo e que eventualmente, será a
minha vez de partir. Honestamente isso não me incomoda,
todos temos a nossa hora, mas preocupo-me muito com meu
irmão e com meu sobrinho. Sophia |
| Novembro de
1845 Caríssima Tia Eugênia Estou lhe escrevendo porque
os laços de amizade com a senhora, querida Tia, me
obrigam, embora eu deva confessar que essa tarefa muito
me desagrada, porque lhe tenho imensa estima e o que
tenho para lhe contar ultrapassa os mais terríveis
pesadelos que uma pessoa possa sonhar. Eu gostaria muito
de ter encontrado uma outra solução para essa
situação, mas não foi possível, está além da
capacidade de qualquer ser humano. Tenho carregado comigo
durante estes últimos meses um fardo que não posso mais
suportar, e quero comunicar-lhe que estou partindo e
explicar-lhe toda a história. Sophia |
| Sophia M
faleceu em outubro de 1847, vítima da doença que a
acometia há muitos anos. Em uma carta a uma de suas
amigas, Lady Eugênia comentou que a aparência do
Almirante no funeral era de um homem profundamente triste
e abatido. O Almirante Jaime M faleceu em dezembro de 1862 em sua casa. Foi encontrado pelos empregados caído no chão da biblioteca ainda com vida, delirando em febre. Chamaram o médico rapidamente, mas ele não pode salvá-lo. Dizem que suas últimas palavras foram "Por que ela nunca mais veio me ver? Uma vez apenas é muito pouco." |